IN MEMORIAM

No Brasil, o estudo das ciências geológicas é relativamente novo. Teve início no mandato do Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), com a assinatura do decreto que criou a Campanha de Formação de Geólogos (CAGE). Antecedendo a esta ação pioneira e necessária, a Petrobras, fundada em 3 de outubro de 1953, também formulou uma política de treinamento, congregando vários profissionais de nível superior, das mais diversas origens, propiciando-lhes cursos de especialização em GEOLOGIA DE PETRÓLEO. De lá para os anos mais recentes, Brasil afora, vários cursos de Geologia e ciências afins foram criados. Atualmente, embora ainda deficiente, há um número significativo de profissionais dedicados a estes ramos das geociências.

A página In memoriam é, agora, incorporada ao nosso site com o objetivo de resgatar nomes de colegas, de qualquer geração, e que tenham contribuído significativamente para o desenvolvimento ou o conhecimento da Geologia do Petróleo do Brasil, principalmente. Como tendência do curso natural da vida, os mais idosos partem primeiro. Assim, muitos destes nomes, também homenageados em vida pela ABGP, estarão ligados à história da Petrobras, quer a partir de seus primeiros cursos de especialização, quer a partir da CAGE. Esta primeira geração é composta pelos verdadeiros pioneiros que lançaram os principais pilares de todo o conhecimento que temos sobre a Geologia do Petróleo de nosso país.

GEÓLOGOS

Paulo Tibana, foi um pioneiro, no Brasil, no estudo das rochas sedimentares carbonáticas. Nesta área geocientífica, sem sombra de dúvidas, constituiu-se na maior autoridade brasileira. Raro é o geólogo brasileiro que, envolvido com rochas desta natureza, não teve aulas com ele.  Graduou-se como engenheiro eletricista e mecânico em 1956 na Escola Federal de Engenharia de Itajubá-MG. Ingressou na Petrobras em 1957 e obteve sua especialização em Geologia do Petróleo em 1958 (convênio Universidade Federal da Bahia-UFBA e Petrobras-CENAP). Em 1965 e 1966 esteve na Universidade de Stanford, California, e atuou como Assistente de Pesquisa na Universidade de Illinois, Urbana, EUA, em 1970.

Ao longo de toda a sua longa e completa carreira na Petrobras, de onde apenas saiu após a aposentadoria, capacitou-se e atuou como geocientista de petróleo no país e no exterior. De início esteve envolvido com projetos relativos às bacias do Paraná e Recôncavo (geologia de superfície e de subsuperfície), tendo, em seguida, se voltado para o estudo de rochas carbonáticas e evaporíticas, incluindo-se aí depósitos cretácicos e terciários das bacias costeiras do Brasil, entre as quais, Espírito Santo, Campos, Sergipe-Alagoas, Barreirinhas e Potiguar. No exterior investigou unidades carbonáticas do Iraque, Guatemala e Trinidad. Pertenceu ao quadro de geólogos do Laboratório Central de Exploração e do Laboratório de Rochas Carbonáticas do Centro de Pesquisas da Petrobras – CENPES. Exerceu a supervisão de estágios de vários professores/profissionais brasileiros e estrangeiros que passaram pela Petrobras em busca de conhecimentos sobre rochas carbonáticas.

Escreveu um conjunto de importantes relatórios técnicos, publicou artigos científicos e preparou roteiros de campo para áreas carbonáticas. No campo do ensino sua contribuição é notável, tendo ministrado, desde 1961, cursos de geologia do petróleo, sedimentologia, estratigrafia, paleoambientes de sedimentação, recursos energéticos, análise de bacias e de rochas carbonáticas, tanto na Petrobras como nas principais universidades brasileiras. Entre as últimas, citam-se UFBA, UFOP, UnB, UFRGS, UNISINOS, UFRJ, UERJ, USP, UNESP e UNICAMP. Nesta última colaborou para a implantação do curso de mestrado em Geoengenharia de Reservatórios. Orientou, ou co-orientou, um expressivo número de graduandos e pós-graduandos, tendo participado de várias bancas examinadoras de mestrandos e doutorandos em diferentes universidades do país.

Como professor visitante, atuou na UNICAMP, UERJ e UNESP. Nesta última universidade, foi pesquisador associado do Centro de Geociências aplicadas ao Petróleo – UNESPetro, Rio Claro. Aí colaborou na implantação de laboratórios, participou no desenvolvimento de projetos de pesquisa e ensino, entre os quais aqueles em parceria com a Petrobras voltados para a formação de novos carbonatólogos para a investigação dos reservatórios petrolíferos do Pré-Sal brasileiro. É um dos autores da obra “Calcários do Cretáceo do Brasil: um atlas”, volumosa e importante síntese petrográfica das principais unidades carbonáticas lacustres e marinhas cretácicas do país, publicada em 2015. Ao longo de sua consistente e brilhante carreira, este devotado e grande geólogo brasileiro, de memória invejável, simples, honesto e colaborativo, honrou a todos nós da comunidade geocientífica. Foi merecidamente homenageado em diversas ocasiões por diferentes entidades e autores.  A respeito de Paulo Tibana, Guilherme Estrella escreve: “Deixou o bem mais precioso que um ser humano pode deixar: o exemplo de pessoa e profissional. … Tibana, você não passou pela vida sem muito contribuir para a humanidade”.

Jorge Alberto Trigüis foi um dos pioneiros no estabelecimento da Geoquímica Orgânica no Brasil, tendo iniciado sua atividade nessa área na década de 80.

Jorge Trigüis formou-se em geologia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1963 e obteve o titulo de doutor pela Universidade de Newcastle (Inglaterra) em 1986. Como geólogo trabalhou nas empresas Camargo Corrêa, Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Paulista Petróleo (Paulipetro), Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI), Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Robertson Research e no Centro de Pesquisas da Petrobras (CENPES).

Durante sua atuação profissional no CENPES (1987 a 1995),  Trigüis foi um dos principais artífices da fundação da Associação Latino-Americana de Geoquímica Orgânica – ALAGO –, juntamente com outros colegas da Petrobras e geoquímicos de empresas de petróleo da América Latina como Petróleos de  Venezuela (PDVSA), Empresa Colombiana de Petróleos S.A. (Ecopetrol), Petróleos Mexicanos (PEMEX) e Yacimientos Petroliferos Fiscales (YPF), além de professores de diversas universidades da região, como por exemplo a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidad Central de Venezuela (UCV), entre outras.

Sempre com muito entusiasmo, Jorge Trigüis foi um importante fomentador da cooperação latino-americana na área da Geoquímica Orgânica, tendo atuado como um dos idealizadores, como sócio fundador e como presidente da ALAGO. Durante sua participação no comitê diretor da ALAGO foram realizados congressos de grande êxito no Brasil, Colombia, Venezuela, Uruguai e México.

Após sua carreira na indústria, Jorge Trigüis atuou como professor universitário na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituições nas quais ele orientou diversas dissertações de Mestrado e teses de Doutorado.

A comunidade de Geoquímica Orgânica no Brasil perde um de seus nomes mais importantes, e, principalmente, um de seus grandes entusiastas.

 

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